Saúde

A Tríade da Atleta Feminina [1/2]

Tríade da Atleta Feminina - Uma desconhecida, mas comum, disfunção na jovem atleta

O termo tríade da atleta feminina foi pela primeira vez definido em 1997,  pela American College of Sports Medicine (ACSM). [1] Inicialmente, o termo definia a presença conjunta de osteoporose, distúrbio alimentar e amenorreia na atleta e pressupunha que a prática intensiva de exercício físico associada a uma dieta hipocalórica, levaria a uma disfunção do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e consequente amenorreia. Esta desencadearia uma redução no nível de estrogénio com aumento do risco de osteoporose. 

Após inúmeras críticas pela comunidade científica,  o termo foi finalmente actualizado em 2007. Segundo esta nova definição, as componentes supracitadas poderão existir singularmente ou em conjunto, podendo variar no seu espectro. Assim, a Tríade foi redefinida como uma inter relação entre a disponibilidade energética, com ou sem distúrbio alimentar, as funções menstrual, hipotalâmica e a saúde óssea. [1] [2-4] 

Atendendo a este novo conceito, uma revisão sistemática revelou que, ainda que uma pequena percentagem de atletas apresentem um déficit nas três componentes da tríade (entre 0-15%), a prevalência de entre uma e duas das componentes varia entre 16.0% e 60.0% e de 2.7% e 27.0% em, respectivamente[5] . Atletas cujas actividades desportivas beneficiam corpos mais magros (ex. ginástica, ballet, dança, etc) demonstraram estar maior risco, evidenciando-se uma maior prevalência da disfunção da tríade.

Quando se verifica um equilíbrio fisiológico entre a disponibilidade energética, função endócrina e  saúde óssea, o ciclo menstrual e a densitometria óssea são normais. No seu inverso, caso haja alguma deficiência contínua na disponibilidade energética, o quadro clínico da tríade descreve a atleta com ou sem distúrbio alimentar, com disfunção hipotalâmica e amenorreia e um quadro de osteoporose

Entende-se por disponibilidade energética como a diferença entre o total de calorias consumidas e a energia gasta pelas actividades metabólicas, incluindo a energia despendida durante o sono e a energia despendida durante o exercício físico. Em condições fisiológicas ideais, a energia consumida deverá igualar ou exceder marginalmente a energia dispendida. Ainda que os processos não sejam totalmente conhecidos, uma diminuição constante da energia disponível, na presença ou não de um distúrbio alimentar, resulta numa diminuição da libertação da hormona Gonadotropina (GnRH) que tem impacto directo na quantidade das hormonas luteína (LH) e folicoloestimulante (FSH), conduzindo a um potencial estado hipoestrogénico na atleta, e consequente amenorreia. [2, 6, 7] Este fenómeno é conhecido como Amenorreia Funcional Hipotalâmica e é comumente observável na presença de uma perturbação na tríade.[7] Esta diminuição das hormonas sexuais poderá contribuir para o desenvolvimento de irregularidades menstruais e diminuição da densidade óssea. Amenorreia e o consequente impacto na quantidade de estrogénios, poderão ter um impacto negativo na saúde musculosquelética. [8] 

A actividade osteoblástica e osteoclástica é amplamente regulada pelo estrogénio. Atendendo a que cerca de 25% da massa óssea é armazenada nos 2 anos perimenarca e o pico de crescimento ósseo ocorrer por volta dos 18 anos {Brown, 2017 #9}, uma interrupção dos processos naturais poderá aumentar o risco de fracturas ósseas [9]. 

amenorreia pode ter um impacto negativo na saúde músculo-esquelética [8], podendo induzir um maior risco de lesões músculo-esqueléticas, ter um efeito negativo na fertilidade, fadiga, performance e saúde geral da atleta a longo prazo. [1, 2, 7, 10, 11]  [6]

Apesar do progresso feito ao nível de criação de guidelines, recomendações para prevenção, triagem, tratamento e retorno à prática desportiva [1, 4, 6, 12], a grande maioria dos médicos [13], treinadores [14] e profissionais de saúde não estão sensibilizados para esta condição.

 

Nota sumária: 

Em Junho de 2017,  a American College of Obstetricians and Gynecologists publicou as seguintes recomendações: [2]
•” A tríade da atleta feminina é uma condição médica observada em indivíduos activos do sexo feminino  que envolve os três componentes: 1) Baixa disponibilidade energética com ou sem distúrbio alimentar, 2) Distúrbio menstrual e 3) baixa densidade óssea. 
• Todas as atletas femininas deverão ser avaliadas nas componentes da tríade e uma avaliação aprofundada deverá ser efectuada no eventual caso de uma ou mais componentes serem identificadas.
• A tríade da atleta feminina é o resultado de um desequilíbrio energético, pelo que ajustar a energia despendida a energia disponível deverá ser o principal objectivo de intervenção. 
• O tratamento farmacológico deverá ser considerado apenas se o tratamento não farmacológico nao for bem bem-sucedido. 
• Baixa disponibilidade energética está associada a disfunção hipotalâmica, e consequente impacto negativo na função menstrual e saúde óssea. Dado que estas condições poderão não ser totalmente reversíveis, a prevenção,  diagnóstico precoce e intervenção são cruciais. 
• Uma abordagem multidisciplinar que envolva a atleta, obstetra/ginecologista, nutricionista desportivo, treinadores, pais e profissionais de saúde mental, se for indicado, deverá ser recomendada.“

 

Ler 2.ª parte do artigo: A Tríade da Atleta Feminina [2/2]

 

Autora do artigo:

Aline Filipe é fisioterapeuta especialista em pelviperineologia e uroginecologia, presentemente a exercer na clínica Mosman Women’s Health/SquareOne, em Sydney (Austrália), sendo a criadora do The Pelvic Tuner, uma plataforma educacional e de advocacia para as condições do pavimento pélvico. Da formação especializada que apresenta destaca-se:
- Women’s Health and Nutrition Coach pelo Integrative Women's Health Institute, USA
- Pós-graduação em Saúde da Mulher pela ESTESL
- Licenciatura em Fisioterapia pela Escola Superior de Saúde de Alcoitão 
- Instrutora de Clinical Pilates 
- Instrutora de Therapeutic Yoga com especial foque na dor pélvica feminina 
- PINC cancer rehab certified Physiotherapist 
- Master em técnicas hipopressivas – Método Hipopressivo M. Caufriez
- Formação específica avançada em dor pélvica, disfunções sexuais e uro-fecais por Tarryn Hallam, Women’s health training associates
- Formação específica em neurologia e neuro dinâmica do pavimento pélvico por Sandy Hilton
- Formação específica em reabilitação do pavimento pélvico em Pediatria, na dor pélvica e na disfunção sexual masculina na dor e pós tratamento oncológico

Fonte:

1. De Souza, M.J., et al., 2014 Female Athlete Triad Coalition consensus statement on treatment and return to play of the female athlete triad: 1st International Conference held in San Francisco, CA, May 2012, and 2nd International Conference held in Indianapolis, IN, May 2013. Clin J Sport Med, 2014. 24(2): p. 96-119.

2. Committee Opinion No.702: Female Athlete Triad. Obstet Gynecol, 2017. 129(6): p. e160-e167.

3. Loveless, M.B., Female athlete triad. Curr Opin Obstet Gynecol, 2017. 29(5): p. 301-305.

4. VanBaak, K. and D. Olson, The Female Athlete Triad. Curr Sports Med Rep, 2016. 15(1): p. 7-8.

5. Gibbs, J.C., N.I. Williams, and M.J. De Souza, Prevalence of individual and combined components of the female athlete triad. Med Sci Sports Exerc, 2013. 45(5): p. 985-96.

6. Brown, K.A., et al., The female athlete triad: special considerations for adolescent female athletes. Transl Pediatr, 2017. 6(3): p. 144-149.

7. Pantano, K.J., Strategies used by physical therapists in the U.S. for treatment and prevention of the female athlete triad. Phys Ther Sport, 2009. 10(1): p. 3-11.

8. Berz, K. and T. McCambridge, Amenorrhea in the Female Athlete: What to Do and When to Worry. Pediatr Ann, 2016. 45(3): p. e97-e102.

9. Papageorgiou, M., et al., Effects of reduced energy availability on bone metabolism in women and men. Bone, 2017. 105: p. 191-199.

10. Javed, A., et al., Female athlete triad and its components: toward improved screening and management. Mayo Clin Proc, 2013. 88(9): p. 996-1009.

11. Williams, N.I., S.M. Statuta, and A. Austin, Female Athlete Triad: Future Directions for Energy Availability and Eating Disorder Research and Practice. Clinics in Sports Medicine, 2017. 36(4): p. 671-686.

12. Mountjoy, M., et al., The IOC consensus statement: beyond the Female Athlete Triad—Relative Energy Deficiency in Sport (RED-S). British Journal of Sports Medicine, 2014. 48(7): p. 491-497.

13. Curry, E.J., et al., Female Athlete Triad Awareness Among Multispecialty Physicians. Sports Med Open, 2015. 1(1): p. 38.

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