Saúde

A Tríade da Atleta Feminina [2/2]

O papel do Fisioterapeuta na Tríade da Atleta Feminina

Fisioterapia é uma profissão técnico-científica diferenciada na reabilitação, prevenção e promoção de saúde em contexto desportivo. [15] Dado o seu papel e a interacção (muitas vezes prolongada) com vários atletas, o Fisioterapeuta, como parte de uma equipa multidisciplinar, encontra-se numa posição privilegiada para a triagem e identificação de factores de risco cruciais e inerentes à tríade. [15]


Os Fisioterapeutas deverão educar os atletas sobre a importância de uma boa nutrição na performance desportiva, prevenção e reabilitação de lesões. [7, 15] Sabe-se que atletas que têm um adequado acompanhamento nutricional, quando existe o objectivo de perder peso, têm uma menor probabilidade de desenvolver distúrbios alimentares ou comportamentos alimentares de risco. [10, 11] Os Fisioterapeutas deverão estar sensibilizados para realidade e encaminhar para Nutricionistas desportivos sempre que necessário. [10, 15] 


Vários estudos demonstram que cerca de 61% dos Fisioterapeutas americanos têm conhecimento da tríade, porém apenas 21% conseguem identificar as componentes da mesma. Todavia, destes apenas 59% reportaram sentirem-se confortáveis para discutir distúrbios alimentares ou disfunção menstrual com as suas atletas. [7] Em Portugal e no Brasil, apesar do elevado número de atletas federadas, pouco se conhece acerca desta temática. 


Segundo as recomendações da American College of Sports Medicine (ACSM) a triagem deverá ser inicialmente efectuada através do Screening the Female Athlete Algorithm [16], que tem como objectivo a recolha da história da atleta. Caso a atleta seja categorizada como alto risco, o questionário deverá ser seguido por uma avaliação aprofundada física e, se necessário, exames de laboratório deverão ser obtidos. O Fisioterapeuta deverá estar envolvido ao nível da participação ou realização de despistes pré-temporada desportiva. Isto permitirá identificar potenciais factores de risco a referenciar para outros profissionais de saúde, assim como reforçar estratégias de educação  para a atleta ou pais acerca de uma alimentação saudável, utilização da pílula, avaliação óssea e disfunção menstrual. [15]


Assim, ao seu papel de identificação das componentes da tríade, acrescenta-se o papel de referenciador e de intervenção no plano de tratamento. Idealmente, o Fisioterapeuta deverá também exercer um papel de educador na comunidade pré e durante a temporada desportiva ao nível da educação de correctas práticas de treino, fornecendo recursos e conceitos básicos de nutrição e elucidar acerca dos sinais de alerta clínicos e comportamentais da tríade. [15]


De acordo com o Committee on Adolescent Health Care da American College of Obstetricians and Gynecologists [2], o principal objectivo terapêutico deverá centrar-se na normalização da menstruação através da regulação da disponibilidade energética. Deverá haver um esforço para manter e recuperar a densidade óssea, assim como tratar condições psicológicas que poderão estar associadas. Ainda que a intervenção farmacológica possa ter um papel na gestão terapêutica desta condição, a utilização da pílula e de outros fármacos, não demonstraram até a data resultados positivos a longo prazo. [1, 2] 


Ainda que exista uma tendência para defender que o atraso da menarca e a intensidade de treino poderão contribuir para uma baixa densitometria óssea, alguns estudos demonstram uma saúde óssea e normal em atletas de elite de ginástica rítmica [17]. Deveremos ter presente que estas atletas têm um atraso médio de 3 anos na menarca, apresentam elevada prevalência de distúrbios menstruais e fazem treinos regulares de alta intensidade (média de 30 horas semanais).[17] Tal sugere que a disponibilidade energética deverá ter um papel de crucial na função reprodutora que transcende o papel do peso corporal, ou da intensidade de treino. [17] Deste modo, ainda que as três componentes da tríade sejam importantes, qualquer abordagem terapêutica deverá começar pela normalização da disponibilidade energética. [10, 11] 


Conclusão: 
Fisioterapia é uma área de excelência no desporto que deverá ter em conta a performance, condição física e sociopsicológica global da atleta. Tendo em conta o seu papel privilegiado na interacção directa com treinadores, pais e outros profissionais de saúde, o Fisioterapeuta apresenta-se numa posição crucial para actuar como intermediário e gestor do processo clínico da atleta. Desta forma, deverá não se focalizar exclusivamente na gestão de lesões musculoesqueléticas, mas também no despiste  e identificação de factores de risco major da tríade. [15]


Subsiste um certo desconhecimento da Tríade da Atleta Feminina por parte da comunidade de profissionais de saúde, ainda que esta devesse ser amplamente considerada na competição desportiva. Atendendo à elevada prevalência da tríade na atleta, há uma emergente necessidade da integração desta temática nos currículos dos graus académicos e programas de formação especializada para estudantes e Fisioterapeutas. [7] 


Notas:
Uma das grandes críticas apontadas à tríade da atleta deve-se ao facto de poder ser considerada sexista já que se refere somente à população feminina. Assim, é importante referir que a população masculina também poderá sofrer de problemas ao nível dos componentes da tríade. Em 2014, o Comité Internacional olímpico definiu um novo termo mais inclusivo ao qual deu o nome de RED-S: Relative Energy Deficiency in Sports. [12] Este termo deveria substituir o antigo conceito Tríade da Atleta Feminina e teria como intuito incluir atletas do sexo masculino. Ainda que haja literatura que define o termo como RED-S, tendo em contas as diferenças particulares de sexo, o termo até agora não se estabeleceu, sendo por isso mais comum encontrar-se mencionado como Tríade da Atleta Feminina. [18]
Para efeitos de síntese, este artigo focou-se apenas na saúde feminina porém o Fisioterapeuta deverá, também na população de atletas masculinos, ter um papel decisivo no despiste e identificação de riscos ao nível da disponibilidade energética (com ou sem distúrbio alimentar), saúde endócrina, sexual e óssea. [19] [9]

 

Ler 1.ª parte do artigo: A Tríade da Atleta Feminina [1/2] 


Autora do artigo:

Aline Filipe é fisioterapeuta especialista em pelviperineologia e uroginecologia, presentemente a exercer na clínica Mosman Women’s Health/SquareOne, em Sydney (Austrália), sendo a criadora do The Pelvic Tuner, uma plataforma educacional e de advocacia para as condições do pavimento pélvico. Da formação especializada que apresenta destaca-se:
- Women’s Health and Nutrition Coach pelo Integrative Women's Health Institute, USA
- Pós-graduação em Saúde da Mulher pela ESTESL
- Licenciatura em Fisioterapia pela Escola Superior de Saúde de Alcoitão 
- Instrutora de Clinical Pilates 
- Instrutora de Therapeutic Yoga com especial foque na dor pélvica feminina 
- PINC cancer rehab certified Physiotherapist 
- Master em técnicas hipopressivas – Método Hipopressivo M. Caufriez
- Formação específica avançada em dor pélvica, disfunções sexuais e uro-fecais por Tarryn Hallam, Women’s health training associates
- Formação específica em neurologia e neuro dinâmica do pavimento pélvico por Sandy Hilton
- Formação específica em reabilitação do pavimento pélvico em Pediatria, na dor pélvica e na disfunção sexual masculina na dor e pós tratamento oncológico

Fonte:

1. De Souza, M.J., et al., 2014 Female Athlete Triad Coalition consensus statement on treatment and return to play of the female athlete triad: 1st International Conference held in San Francisco, CA, May 2012, and 2nd International Conference held in Indianapolis, IN, May 2013. Clin J Sport Med, 2014. 24(2): p. 96-119.

17. Maimoun, L., et al., Despite a high prevalence of menstrual disorders, bone health is improved at a weight-bearing bone site in world-class female rhythmic gymnasts. J Clin Endocrinol Metab, 2013. 98(12): p. 4961-9.

16. Mountjoy, M., Hutchinson, M., Cruz, L, Lebrun, C Screening the Female Athlete Algorithm F.A.T. Coalition, Editor., Female Athlete Triad Coalition.

15. Stickler, L., B.J. Hoogenboom, and L. Smith, THE FEMALE ATHLETE TRIAD-WHAT EVERY PHYSICAL THERAPIST SHOULD KNOW. Int J Sports Phys Ther, 2015. 10(4): p. 563-71.

14. Pantano, K.J., Knowledge, Attitude, and Skill of High School Coaches with Regard to the Female Athlete Triad. J Pediatr Adolesc Gynecol, 2016.

13. Curry, E.J., et al., Female Athlete Triad Awareness Among Multispecialty Physicians. Sports Med Open, 2015. 1(1): p. 38.

12. Mountjoy, M., et al., The IOC consensus statement: beyond the Female Athlete Triad—Relative Energy Deficiency in Sport (RED-S). British Journal of Sports Medicine, 2014. 48(7): p. 491-497.

11. Williams, N.I., S.M. Statuta, and A. Austin, Female Athlete Triad: Future Directions for Energy Availability and Eating Disorder Research and Practice. Clinics in Sports Medicine, 2017. 36(4): p. 671-686.

18. Thein-Nissenbaum, J. and E. Hammer, Treatment strategies for the female athlete triad in the adolescent athlete: current perspectives. Open Access J Sports Med, 2017. 8: p. 85-95.

10. Javed, A., et al., Female athlete triad and its components: toward improved screening and management. Mayo Clin Proc, 2013. 88(9): p. 996-1009.

8. Berz, K. and T. McCambridge, Amenorrhea in the Female Athlete: What to Do and When to Worry. Pediatr Ann, 2016. 45(3): p. e97-e102.

7. Pantano, K.J., Strategies used by physical therapists in the U.S. for treatment and prevention of the female athlete triad. Phys Ther Sport, 2009. 10(1): p. 3-11.

6. Brown, K.A., et al., The female athlete triad: special considerations for adolescent female athletes. Transl Pediatr, 2017. 6(3): p. 144-149.

5. Gibbs, J.C., N.I. Williams, and M.J. De Souza, Prevalence of individual and combined components of the female athlete triad. Med Sci Sports Exerc, 2013. 45(5): p. 985-96.

4. VanBaak, K. and D. Olson, The Female Athlete Triad. Curr Sports Med Rep, 2016. 15(1): p. 7-8.

3. Loveless, M.B., Female athlete triad. Curr Opin Obstet Gynecol, 2017. 29(5): p. 301-305.

2. Committee Opinion No.702: Female Athlete Triad. Obstet Gynecol, 2017. 129(6): p. e160-e167.

9. Papageorgiou, M., et al., Effects of reduced energy availability on bone metabolism in women and men. Bone, 2017. 105: p. 191-199.

19. Tenforde, A.S., et al., Parallels with the Female Athlete Triad in Male Athletes. Sports Med, 2016. 46(2): p. 171-82.

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