Saúde

Cefaleias motivam 40 a 50% das consultas neurológicas

Enxaqueca é a 3.ª doença mais prevalente e a 7.ª mais incapacitante, no mundo

A cefaleia é, de acordo com Isabel Luzeiro, neurologista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), uma das queixas mais frequentes na prática clínica, correspondendo a 40-50% de todas as consultas neurológicas. A especialista explica que a cefaleia é definida como "qualquer dor ou sensação desagradável localizada no crânio ou face".


De acordo com a neurologista Isabel Luzeiro, as cefaleias podem ser primárias ou secundárias. "As cefaleias primárias têm início habitualmente na infância, na adolescência ou no início da vida adulta", indica, adiantando que são exemplo deste tipo de cefaleias a enxaqueca, as cefaleias de tensão, a hemicrania paroxística e o "cluster".


Quanto às cefaleias secundárias, a especialista afirma que podem ser o único ou um de vários sintomas de uma diversidade de patologias, como doenças vasculares cerebrais, doenças sistémicas, iatrogenia, secundárias a traumatismo encefálico e/ou cervical, infeções, entre outras.


Como diferenciar os diferentes tipos de cefaleia?


Isabel Luzeiro refere que a cefaleia de tensão é a mais frequente das cefaleias primárias – 62,5% na forma pura, mais 12,1% nas formas combinadas com outros tipos de cefaleias (Pereira Monteiro, 1995) – e é muitas vezes associada à sensação de peso. "É frequentemente bilateral, de localização frontal ou occipital, habitualmente sem os outros fenómenos acompanhantes descritos na enxaqueca", menciona.


enxaqueca é o segundo tipo de cefaleias primárias mais comuns. Caracteriza-se por "uma cefaleia crónica, habitualmente com episódios autolimitados no tempo, mas recorrente". Segundo a neurologista, tipicamente, tem localização unilateral, caráter pulsátil, intensidade moderada ou severa, associação a náuseas e/ou vómitos, fono e fotofobia.


As cefaleias trigemino-autómicas incluem o cluster (cefaleia em salvas), a cefaleia hemicrania episódica, crónica e paroxística, o SUNCT (cefaleia de curta duração, unilateral, nevralgiforme, com injeção conjuntival e lacrimejo), e o SUNA (cefaleia de curta duração, unilateral, nevralgiforme, com sintomas autonómicos cranianos). Neste tipo de cefaleias, é necessária a exclusão de lesão estrutural subjacente.


hemorragia subaracnoideia (HSA) é uma das causas das cefaleias secundárias. Segundo Isabel Luzeiro, "a dor é tipicamente de início súbito, severa e atingindo o máximo de intensidade em minutos". É o motivo mais comum de cefaleia intensa de início súbito e a mortalidade ronda os 40-50%.


A neurologista realça ainda as cefaleias associadas a infecção, hipertensão arterial – TA sistólica (> 160mm Hg) e/ou diastólica (> 120 mm Hg) -, arterite de células gigantes, apneia do sono e a toma excessiva e regular de medicação sintomática para a dor de cabeça (mais de 10 ou mais de 15 dias por mês, consoante a medicação), durante mais de três meses.


12% da população portuguesa sofre de enxaqueca.


Em Portugal, a prevalência da enxaqueca atinge 12%. Segundo Isabel Luzeiro, a enxaqueca está associada a dor, incapacidade, impacto pessoal e social, interferência negativa na qualidade de vida e custos financeiros. "Trata-se da 3.ª doença mais prevalente e da 7.ª mais incapacitante, no mundo." (Global Burden Of Disease Survey 2010). Em termos de custos, a neurologista indica que a enxaqueca é a 9.ª doença neurológica cerebral e a 3.ª na mulher (OMS).


"Embora, habitualmente, o diagnóstico não seja difícil, é necessária a existência de cinco episódios de enxaqueca sem aura e de dois episódios de enxaqueca com aura para se colocar o diagnóstico definitivo."


Mais raramente, a neurologista refere que ocorre a designada enxaqueca crónica, ou seja, quando ocorre cefaleia durante 15 ou mais dias por mês, e pelo menos em oito dias, a dor tem característica de enxaqueca. "A utilização de um 'diário' para o registo da dor é fundamental para um diagnóstico correcto", salienta.


Quanto à terapêutica, deverá integrar o tratamento não farmacológico (evicção de factores desencadeantes), o tratamento das crises e, se necessário, o tratamento profilático. No caso da terapêutica abortiva ou tratamento da crise, Isabel Luzeiro refere que se poderão usar duas metodologias: tratamento estratificado ou escalonado.

Fonte:

Texto original publicado no Jornal Médico, N.º 6, setembro 2013

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