Saúde

INVESTIGADORES PORTUGUESES PREPARAM CIRURGIA INÉDITA À ATM

  • Uma equipa liderada pelo investigador David Ângelo está a preparar uma cirurgia inédita em Portugal para colocar biomateriais inteligentes capazes de regenerar o disco articular junto à mandíbula, resolvendo um problema que afecta cerca de 30% dos portugueses.

     

    Cirurgia inédita à ATM, em modelo animal, tem como objectivo obter conclusões essenciais para criar e melhorar as opções de tratamento desta patologia em humanos, nos próximos anos.

    disfunção mandibular é a causa mais comum de dor orofacial de origem não-dentária e os principais sintomas são a dor articular, que pode atingir o ouvido, a limitação na abertura da boca e estalidos na articulação.

    A investigação está na recta final e, se os resultados da fase pré-clínica se mantiverem sólidos, a cirurgia em humanos pode acontecer no próximo ano.

    Em declarações à agência Lusa, o investigador David Ângelo explicou que, neste momento, "os doentes com disfunção da articulação tempero-mandibular severa, em que já há destruição do disco, não têm qualquer tipo de opção terapêutica validada".

    "O que fazemos, o que as `guidelines` nos estão a sugerir é tirar o disco da articulação. No entanto, os resultados são imprevisíveis e eu digo aos meus doentes que não sei bem o que pode acontecer, que pode ficar bem e haver uma boa adaptação, mas pode degenerar e acabar a ter de pôr uma prótese", adiantou.

    O investigador, cirurgião no Centro Hospitalar de Setúbal, lembrou ainda: "quando tiramos o disco e não pomos nada no meio leva a um processo degenerativo grande".

    Esta investigação usou como modelo as Ovelhas Merino, o animal que tem a articulação mandibular mais parecida com a dos humanos, "quer do ponto de vista da anatomia como da biomecânica".

    A equipa começou por tirar os discos e ver o que acontecia, tendo concluído pela existência de um processo degenerativo grande. Depois, durante quase três anos, foram desenvolvidos biomateriais com as mesmas características do disco antigo.

    Segundo explicou, um biomaterial é nacional e, nos testes `in-vitro`, mostrou "propriedades regenerativas impressionantes".

    "Acabámos agora de introduzir, pela primeira vez no mundo, os biomateriais no meio da articulação e vamos ver se conseguem em seis meses fazer o papel do disco", disse Davis Ângelo, sublinhando que, "se tudo correr bem," esta alteração "vai ter uma utilidade imensa nos doentes, que não conseguem abrir a boca e isso tem um impacto muito grande na vida deles" .

    Segundo explicou, com esta intervenção "há um equilíbrio entre o processo de degradação de material e a regeneração de novas células".

    "À medida que se vai integrando, o material vai sendo ocupado por células do próprio sector. No final é suposto não haver material nenhum e há um disco completamente cheio de células do receptor", disse, lembrando que os doentes deixam de ter dores, passa a haver uma mastigação suave e uma mobilidade normal.

    De acordo com o cirurgião, há vários tipos de causa para esta disfunção: "pode haver causas genéticas, doenças autoimunes que contribuem para o seu aparecimento, mas a grande parte é por sobrecarga da articulação, ou seja, em pessoas que têm bruxismo ou têm muito stress e estão sempre a ranger os dentes, o que sobrecarrega a articulação tanto ao ponto que o disco não aguenta a e degrada-se. Aí começa a haver artrose da articulação"

    Esta investigação na área da medicina regenerativa já recebeu seis prestigiados prémios nacionais e internacionais.

    David Ângelo reforça a importância do estudo: "mesmo não sabendo o resultado final, em cada congresso que apresentamos novos resultados somos contactados por especialistas internacionais que ficam impressionados com este estudo e que já têm doentes candidatos para o potencial biodisco".

    Em 2015, esta investigação contou com o apoio da Bolsa para Jovens Investigadores em Dor, atribuída pela Fundação Grünenthal a David Ângelo.

    Fonte: RTP Notícias. Lusa

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