Exercício

Monitorização de Carga: base para uma prevenção de lesões eficaz [1/2]

Eficácia da monitorização de carga enquanto preditivo de lesão

Numa altura em que falamos tão frequentemente de prevenção de lesões é importante percebemos de que maneira podemos realmente, e sustentados em evidência científica, avaliar o risco de lesão e intervencionar de um modo eficaz. Não podemos desassociar o conceito de prevenção de lesão e de optimização de performance. Quando trabalhamos um destes objectivos automaticamente estaremos a trabalhar o outro, sempre. 

Há métodos e parâmetros que acabamos por utilizar como preditivos de lesão por senso comum, como é o caso da mobilidade, controlo motor e estabilidade, qualidade de movimento e técnica – factores que considero pessoalmente serem também fundamentais de serem trabalhados – que na verdade ainda não têm grande evidência científica como factores de risco para lesão. No entanto, há um método bastante simples de aplicar que acaba por ser suportado de uma maneira bastante evidente como um preditivo de lesão eficaz – a monitorização.

Após a exposição, no artigo da Master Science Lab (Strength & Conditioning - Ferramenta Fundamental na Fisioterapia - LER PARTE 1 | LER PARTE 2) sobre a importância do treino na reabilitação, prevenção e optimização de performance de todas as populações é fundamental perceber de que maneira estamos realmente a potenciar/proteger e não a pôr em risco os nossos pacientes/atletas. Perceber novamente que se tivermos uma visão certa, temos que percepcionar todos os indivíduos como atletas, e teremos sempre que direccionar a nossa intervenção de uma maneira individualizada e personalizada, direccionada para as necessidades de quem recorre aos nossos serviços. Tal como os atletas têm momentos de repouso, pré-competitivos e competitivos, também o comum dos indivíduos acaba por ter períodos mais ou menos intensos física ou psicossocialmente.

Perceber também que temos de ser pertinentes no quê, no como, quando, e quão frequentemente avaliar, de maneira a fazer sentido os dados monitorizados, registados, analisados e interpretados. Percebe-se também que para além dos benefícios práticos desta metodologia, a monitorização acaba por levar a um aumento do conhecimento de todos os elementos do staff ligados ao treino e melhorar assim o know-how sobre prescrição de treino e repouso e é uma óptima maneira de promover uma sensação de envolvimento, de empowerment e de posse perante a intervenção por parte do atleta/paciente [1-7].

No treino, o equilíbrio e um planeamento bem efectuado é fulcral, sendo possível perceber este aspecto pelo paradoxo treino-prevenção de lesões proposto por Gabett. Sabendo-se que quer o overtraining quer o undertraining são factores de risco acrescido. Se treinar em demasia não se permite uma recuperação suficiente para ocorrer o processo de supercompensação, levando a situações de overreaching não-funcional ou mesmo a síndromes de overtraining – obviamente aumentando exponencialmente o risco de lesão ou doença e diminuindo a performance – também treinar abaixo das necessidades do indivíduo (sejam elas desportivas ou profissionais) não promove um factor de protecção à intensidade desses momentos também levando a um aumento de risco de lesão. Atletas de elite de formação de futebol com um maior nível de treino antes da entrada em modelos competitivos tiveram menos incidência de lesão. Também o facto de os indivíduos encontrarem-se em situação de relativa não-prontidão não oferece a capacidade aos mesmos de lidar com os esforços de alta intensidade durante momentos competitivos, levando a um risco de lesão acrescido quando o período de recuperação entre jogos diminui drasticamente. Gabett assim aliado ao seu paradoxo de treino-prevenção define que aumentos rápidos de carga aumentam probabilidade de lesão, enquanto a exposição a altas cargas de uma maneira crónica leva a uma diminuição desta probabilidade pelo aumento da performance [4, 6-12].

Percebe-se que as grandes/pequenas cargas acumuladas promovem uma maior incidência de lesão, mas acabam por ser as flutuações muito repentinas de carga o factor na prescrição de treino mais importante em termos de risco de lesãoNão se deve aumentar a carga semanal numa ponderação superior a 10% visto que aumentos superiores a 15% acabam por expor os indivíduos a lesão em 21%-49% [2, 6, 8, 10, 13, 14].

Por este motivo os parâmetros de monitorização mais referenciados como preditivos de risco de lesão são o rácio de carga aguda: crónica (RCAC), carga acumulada e mudanças repentinas na carga de treino, não sendo obviamente os únicos. Ressalvo novamente que o nosso papel, como Fisioterapeutas, continua a ser prevenir, reabilitar e potenciar, sendo a monitorização apenas uma ferramenta para nos auxiliar nestes mesmos objectivos [6, 15, 16]. 

carga aguda é definida pela carga de trabalho realizado num curto período de tempo de 1 a 7 dias e a carga crónica pelo carga de trabalho realizado num período de tempo mais alargado de 21 a 28 dias. O esquema com evidência de ser o preditivo mais fidedigno é o que contém uma janela de 3-6 dias para carga aguda e de 21-28 dias para a carga crónica, referido num estudo que utilizou o futebol australiano como objecto de investigação (tendo sido encontrada uma maior pertinência na jane-la 3 dias: 21 dias - carga aguda:carga crónica) [6].

Torna-se assim o objectivo primordial do treino aumentar os níveis de performance e assim diminuir o risco de lesão. Para tal temos que ter atenção à prescrição da carga acumulada de trabalho, o modo como a carga flutua e à intensidade da mesma. Manter um nível de carga crónica o mais elevado possível acaba por promover uma resiliência ao indivíduo que o protege contra possíveis lesões por aumentar o nível de fitness e as capacidades físicas, além de o preparar para tolerar, de uma maneira mais eficaz, maiores aumentos de carga aguda e a exposição de bouts de velocidade máxima. Apesar de o volume de carga ser constantemente estudado, não tanta atenção tem sido oferecida às intensidades da carga, mas acaba-se por perceber que a intensidade e volume têm o mesmo comportamento em relação à probabilidade de lesão, visto a baixa e alta exposição a momentos de alta velocidade levarem a uma maior probabilidade de lesão em momentos de intensidade similar em competição [1, 5, 8-10, 17-19].

Deste modo Banister propôs que há uma resposta de performance ao treino: uma negativa - a fadiga; e uma positiva - o fitness. O designado sweet spot é a zona de treino onde o nível de fitness é maior que o nível de fadiga. Este sweet spot acaba por ser dependente da modalidade desportiva, mas normalmente encontra-se com valores de RCAC de 0,8-1,5 – tendo um poder protectivo - sabendo que valores inferiores a estes podem levar a um aumento de 4% na probabilidade de lesão nos 7 dias seguintes. Há também bibliografia que sustenta que na presença de RCAC aumentado ocorre um acréscimo de 2-4x nas probabilidade de lesões na mesma janela de tempo. Este dado é sustentado com outros estudos, com jovens atletas, que conseguiram perceber que na ocorrência de uma semana com um incremento significativo de carga há um aumento de probabilidade de lesão na semana seguinte. Já outros estudos defendem que os indivíduos estão mais expostos a lesão não só na semana seguinte, mas também na mesma semana onde o incremento agudo de carga foi realizado. Estes riscos acrescidos tendem a manter-se num período de 4 semanas posteriores à semana com carga mais elevada. Já no cricket encontrou-se uma probabilidade 3 vezes maior quando o RCAC tinha um valor de 2 [6, 8, 10, 12, 18, 20-22]. 

Podemos então concluir dois pontos: que aumentos ou decréscimos muito exponenciais de carga aguda acabam por predizer lesão e que dependendo da população ou modalidade desportiva os valores acabam por variar [4, 8, 23].

 

Ler 2.ª parte do artigo aqui: http://bit.ly/2wuFMap

 

Referências:
1. Kellmann, M., Preventing overtraining in athletes in high-intensity sports and stress/recovery monitoring. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 2010. 20: p. 95-102. | 2. Gabbett, T.J. and D.G. Jenkins, Relationship between training load and injury in professional rugby league players. Journal of Science and Medicine in Sport, 2011. 14(3): p. 204-209. | 3. Colby, M.J., et al., Accelerometer and GPS-Derived Running Loads and Injury Risk in Elite Australian Footballers. The Journal of Strength & Conditioning Research, 2014. 28(8): p. 2244-2252. | 4. Halson, S.L., Monitoring Training Load to Understand Fatigue in Athletes. Sports Medicine, 2014. 44(2): p. 139-147. | 5. Black, G.M., et al., Monitoring Workload in Throwing-Dominant Sports: A Systematic Re-view. Sports Medicine, 2016. 46(10): p. 1503-1516. | 6. Carey, D.L., et al., Training loads and injury risk in Australian football—differing acute: chronic workload ratios influence match injury risk. British Journal of Sports Medicine, 2016. | 7. Drew, M.K., J. Cook, and C.F. Finch, Sports-related workload and injury risk: simply know-ing the risks will not prevent injuries. British Journal of Sports Medicine, 2016. | 8. Bowen, L., et al., Accumulated workloads and the acute:chronic workload ratio relate to injury risk in elite youth football players. British Journal of Sports Medicine, 2016. | 9. Ehrmann, F.E., et al., GPS and Injury Prevention in Professional Soccer. The Journal of Strength & Conditioning Research, 2016. 30(2): p. 360-367. | 10. Gabbett, T.J., The training-injury prevention paradox: should athletes be training smarter and harder? British Journal of Sports Medicine, 2016. | 11. Windt, J. and T.J. Gabbett, How do training and competition workloads relate to injury? The workload—injury aetiology model. British Journal of Sports Medicine, 2016. | 12. Stares, J., et al., Identifying high risk loading conditions for in-season injury in elite Australi-an football players. Journal of Science and Medicine in Sport, 2017. | 13. Hulin, B.T., et al., Spikes in acute workload are associated with increased injury risk in elite cricket fast bowlers. British Journal of Sports Medicine, 2013. | 14. Soligard, T., et al., How much is too much? (Part 1) International Olympic Committee con-sensus statement on load in sport and risk of injury. British Journal of Sports Medicine, 2016. 50(17): p. 1030-1041. | 15. Blanch, P. and T.J. Gabbett, Has the athlete trained enough to return to play safely? The acute:chronic workload ratio permits clinicians to quantify a player's risk of subsequent injury. Brit-ish Journal of Sports Medicine, 2016. 50(8): p. 471-475. | 16. Williams, S., et al., Monitoring What Matters: A Systematic Process for Selecting Training-Load Measures. International Journal of Sports Physiology and Performance, 2017. 12(Suppl 2): p. 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Autor do artigo:

João Ferreira é Fisioterapeuta, pela Escola Superior de Saúde do Porto, e Performance Specialist Level 1, pela EXOS. Tem formação em Functional Range Conditioning Mobility Specialist, pela Functional Anatomy Seminars de Dr. Andreo Spina, e soon-to-be Strength and Conditioning Specialist, pela National Strength and Conditioning Association (EUA). Possui ainda vasta formação, de referência mundial, na área da Terapia Manual e do Exercício. O autor tem interesse acrescido pelo exercício como metodologia de tratamento, recuperação e optimização de performance e pela sua monitorização, assim como também pela neurociência da dor. No seu percurso profissional destaca-se o trabalho desenvolvido no departamento médico de futebol do Futebol Clube do Porto e na FISIOGlobal, onde actualmente desempenha o papel de Fisioterapeuta e Performance Specialist com atletas de alto rendimento e não-atletas.

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