Saúde

SAÚDE NO FUTEBOL COM A FOOTBALL MEDICINE - QUAL O IMPACTO DAS LESÕES

Essencial perceber a distribuição das lesões no futebol

  • O tempo é algo limitado, dessa forma, grande parte do nosso sucesso profissional estará relacionado com a forma como rentabilizamos esse tempo que dispomos com os nossos atletas. Este é um dos motivos pelos quais se torna essencial perceber a distribuição das lesões no futebol, de forma a racionalizar os nossos recursos para as estruturas que mais frequentemente sofrem lesão ou que levam a um maior período de ausência dos nossos atletas.

    Parece-nos então evidente que será de extrema importância que o primeiro passo para se perceber como melhorar o estado de saúde dos atletas de futebol será entender quais as lesões típicas desse mesmo desporto, assim como a incidência das mais relevantes.

    Caracterização das lesões no futebol

    O termo “lesão” é algo que acompanhará sempre o desporto, isto porque, apesar da sua taxa de incidência poder ser reduzida com estratégias preventivas, infelizmente nunca poderá ser eliminada. Este termo no futebol é definido como “qualquer queixa física resultante do treino ou jogo de futebol, independente da necessidade de cuidados médicos ou ausência das atividades desportivas”. 

    Todas as modalidades desportivas acarretam risco de lesão e o futebol não é uma excepção. Contudo, a distribuição dos tipos e locais de lesão de cada modalidade pode diferir significativamente, como pode ser confirmado na Tabela 1.

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    Muito do que hoje se sabe acerca da epidemiologia das lesões no futebol se deve ao trabalho desenvolvido pelo UEFA Elite Club Injury Study Group, liderado pelo Jan Ekstrand, sendo uma ferramenta fundamental para contextualizar as lesões no futebol.

    Os dados que apresentamos em baixo são referentes à temporada 2015/2016, refletindo o panorama das equipas que competem na UEFA Champions League. De salientar o facto destes números representarem uma média, significando que, por exemplo, existem clubes em que a sua taxa de incidência de lesões está muito abaixo da média, sendo que outros tantos se comportam de forma oposta (Figura 1). Desta forma, caso a sua estatística de lesões corresponda à média aqui encontrada não relaxe, dedique antes um tempo para reflectir sobre as suas metodologias e perceber que estratégias poderá implementar para se aproximar o mais possível dos clubes que registam uma menor taxa de lesões.

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    Sabe-se que uma equipa de futebol constituída por 25 jogadores terá ao longo da temporada uma média de 50 lesões, isto é, em média existirão duas lesões por cada jogador que essa equipa apresente.

    No entanto, a distribuição desse número de lesões não terá uma distribuição topográfica uniforme como já havíamos visto anteriormente e como podemos observar na Figura 2, mostrando obvia e claramente que o quadrante inferior é o local predilecto para a ocorrência de lesões no futebol, destacando-se as lesões localizadas na coxa.

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    Sendo o futebol caracterizado como um desporto intermitente, com esforços de alta intensidade alternados com períodos de baixa intensidade, é de fácil percepção o elevado grau de solicitação e exigência a que a musculatura do atleta vai estar sujeita. Este será um dos factores que leva a que as lesões musculares sejam o problema número um no futebol como podemos verificar na Figura 3. Contudo, as lesões musculares não são um problema isolado do futebol, mas sim de todos os desportos que acarretem contrações de elevada magnitude, de forma a expressar grandes índices de força, potência e velocidade (ex. sprinters, futebol americano, râguebi, futebol australiano).

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    Os músculos da região posterior da coxa são os mais frequentemente lesionados no futebol. Estes músculos são extremamente importantes para o atleta uma vez que, para além serem responsáveis por desenvolver força horizontal durante a corrida – e com isto contribuir para a velocidade da mesma – são também responsáveis por desacelerar o membro inferior durante a sua oscilação durante a corrida, sendo que a sua solicitação se torna máxima quando o atleta se aproxima de 80-85% ou mais da sua velocidade máxima.

    Posto este cenário, intuitivamente podemos já deduzir que esforços de corrida a alta velocidade ou sprint poderão contribuir a larga escala para a taxa de incidência de lesões no futebol. O grupo de investigação do Jan Ekstrand tem vindo a constatar precisamente isso, mostrando que o mecanismo de lesão mais frequente no futebol advém da corrida/sprint como podemos contemplar na Figura 4. De salientar que este mecanismo de lesão não é exclusivo da lesão destes músculos, uma vez que este é um mecanismo de lesão que ocorre noutros tipos de lesão muscular (ex. reto femoral, tricipete sural, etc.)

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    A identificação do mecanismo de lesão será porém um dos dados mais importantes a recolher após uma lesão, uma vez que para além de indicador de prognóstico, será determinante na elaboração dos critérios de progressão e retorno à competição durante o processo de reabilitação. Tópico este que será dissecado mais adiante nas nossas rubricas. 

    Outros dos dados relevantes encontrados nos estudos da UEFA são relativos aos dias de ausência médios dos atletas quando lesionados. Cerca de 42% dos atletas demoram cerca de 8 a 28 dias a regressar à competição, acarretando elevados impactos de desempenho e financeiro aos clubes, como poderemos constatar na Figura 5.

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    Existem porém outros dados relevantes no estudo da UEFA, que podem refletir numa primeira instância a falta de monitorização das cargas de treino e jogos no futebol, estado de recuperação e/ou robustez dos atletas.

    Estes investigadores mostraram que, apesar de grande parte das lesões no futebol terem uma natureza traumática (63%), as lesões devido a sobrecarga apresentam também valores expressivos a rondar os 37%. Estes dados demonstram a necessidade de se aprimorar o controlo das variáveis de carga nos atletas de futebol, investindo em estratégias que visem a sua monitorização, assim como noutras que contemplem o aumento da robustez desses mesmos atletas através de programas complementares (ex. Treino das qualidades físicas dos atletas).

    Quando analisada a distribuição das lesões de contacto e lesões de não-contacto no futebol, os resultados são tudo menos animadores, registando-se nas equipas que competiram na UEFA Championship League 2015/2016: 833 lesões de não-contacto e 315 lesões de contacto. Estes valores remontam ao apelo do parágrafo anterior, da necessidade de aprimorar as estratégias de monitorização de cargas, estado de recuperação e robustez dos atletas de futebol.

    Tradicionalmente, assume-se que as lesões de não-contacto são as que poderão mais facilmente ser evitadas através da implementação de estratégias de prevenção de lesão, no entanto, como teremos oportunidade de ler mais adiante nesta rubrica, existem estratégias que têm também uma palavra a dizer em relação às lesões de contacto.

    Em suma, as lesões no futebol são inevitáveis, contudo a sua taxa de incidência poderá ser afetada positivamente com recurso a algumas estratégias que visem a monitorização de cargas, estado de recuperação e outras que se centrem no aumento da robustez dos atletas.

    A lesão muscular é considerado o problema número um no futebol atual, sendo a lesão com maior taxa de incidência. Por esse motivo, iremos, já na próxima edição desta rubrica, explorar este tópico, de forma a conhecermos melhor este problema, iniciando uma viagem que nos levará a perceber que estratégias a adoptar para diminuir a probabilidade desses mesmos eventos.

    Fontes:

    Bom Futebol

    Football Medicine®

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