Saúde

SEXO NO PRÉ-PARTO: A FISIOTERAPIA PARA ALÉM DO PAVIMENTO PÉLVICO [1/2]

  • O período de gestação denota alterações ao nível da vivência do acto sexual que poderão estar associadas a factores estruturais, psicológicos ou do foro social. Inserido no âmbito de uma equipa multidisciplinar, o Fisioterapeuta neste período deverá ter não só em conta a prevenção e reabilitação do pavimento pélvico, mas também assumir um papel crucial de educador na função sexual.

     

    O Fisioterapeuta como treinador do pavimento pélvico, educador e parte da equipa multidisciplinar do casal durante a gravidez

    Uma gravidez é um período de enorme mudança na vida de um casal. Os futuros pais adaptam-se a realidade de um novo membro de família e consequente mudança dos seus papéis, enquanto experienciam concomitantemente grandes alterações às suas rotinas e funções sexuais. O casal pode não estar a par destas alterações, acrescendo-se o facto de este período ser maioritariamente focalizado na saúde da mulher e do feto, o que conduz a que tópicos como a saúde sexual do casal muitas vezes não sejam discutidas com os profissionais de saúde. [1, 2] À intervenção do Fisioterapeuta no período da gravidez acresce uma crucial necessidade de assumir a função de educador e de intervir na prevenção reabilitadora do pavimento pélvico na temática da função sexual. O Fisioterapeuta assume, assim, um papel crucial enquanto educador e reabilitador do pavimento pélvico durante o período da gravidez.

    De forma a melhor contextualizar a intervenção do Fisioterapeuta nesta área, começaremos por explicar alguns conceitos mais básicos da anatomia e fisiologia do pavimento pélvico e a sua relação com o prazer sexual feminino.

    pavimento pélvico pode ser dividido em três partes: a porção mais superficial (bulboesponjoso, transversal e superficial do períneo, e esfíncter do ânus), a intermédia (músculo transverso profundo do períneo) e a sua porção mais profunda (puborectal, pubococcigeo e iliococcigeo formando o músculo levantador do anús). [3, 4]. Para além das mais conhecidas funções de suporte dos orgãos pélvicos e continência, o pavimento pélvico desempenha também um papel critico na função sexual. Na mulher, o músculo isquicavernoso vincula-se com o prepúcio do clitóris sendo responsável por promover o ingurgitamento do clítoris e portanto, aumentando a sensibilidade e prazer feminino. [3, 4] O bulboesponjoso demonstra também ter uma função primordial no ápice do prazer feminino, sendo este responsável pelas contracções rítmicas em muitas mulheres associadas ao orgasmo. [3] A relação dinâmica entre os músculos puborectal, bulboesponjoso e isquiocavernoso é responsável pelo crescendo associado ao acto sexual e consequente orgasmo feminino. O fechamento vaginal é assistido pelos músculos bulboesponjoso, e puborectal assim como pela activação do levantador do ânus – sendo os últimos responsáveis pelo balonismo da cúpula vaginal durante o acto sexual. [5]

    Contrariamente ao sexo masculino, muitas mulheres não atingem o orgasmo através de sexo penetrativo, porém estas podem alcançá-lo através de estimulação clitorial direta ou indireta, estimulação vaginal ou estimulação de outras áreas intimas.[1]

    disfunção sexual feminina pode ser sucintamente dividida em 3 tipos: disfunção de interesse ou excitação sexual, disfunção orgásmica e disfunção de dor genitopélvica/penetração sexual. O transtorno ou disfunção de interesse/excitação sexual é o quadro mais comum de disfunção sexual feminina. [2, 6] Neste a mulher demonstra uma inexistência ou redução predominante de interesse pela actividade sexual, frequência de pensamentos sexuais, vontade de iniciação sexual, excitação/ prazer durante o acto sexual e uma diminuição do interesse na resposta erótica/sexual ou das sensações genitais ou não genitais. [3].

    Entende-se por função orgásmica deficitária aquela que é descrita de baixa intensidade, de difícil resolução ou inexistência de orgasmo. [3] Esta poderá ser primária ou secundária a patologia, trauma, medicação, etc.

     

    Ler 2.ª parte do artigo aqui: Sexo no pré-parto: a fisioterapia para além do pavimento pélvico [2/2]

     

    Referências:

    1. Jawed-Wessel, S. and E. Sevick. The Impact of Pregnancy and Childbirth on Sexual Behaviors: A Systematic Review. (1559-8519 (Electronic)).
    2. Leeman, L.M. and R.G. Rogers. Sex after childbirth: postpartum sexual function. (1873-233X (Electronic)).
    3. Rosenbaum, T.Y.. Pelvic floor involvement in male and female sexual dysfunction and the role of pelvic floor rehabilitation in treatment: a literature review. (1743-6095 (Print)).
    4. Ashton-Miller, J.A. and J.O. DeLancey. Functional anatomy of the female pelvic floor. (0077-8923 (Print)).
    5. Shafik, A.. The role of the levator ani muscle in evacuation, sexual performance and pelvic floor disorders.

     

    Autora do artigo:

    Aline Filipe é fisioterapeuta especialista em pelviperineologia e uroginecologia, presentemente a exercer na clínica Mosman Women’s Health/SquareOne, em Sydney (Austrália), sendo a criadora do The Pelvic Tuner, uma plataforma educacional e de advocacia para as condições do pavimento pélvico. Da formação especializada que apresenta destaca-se:
    - Women’s Health and Nutrition Coach pelo Integrative Women's Health Institute, USA
    - Pós-graduação em Saúde da Mulher pela ESTESL
    - Licenciatura em Fisioterapia pela Escola Superior de Saúde de Alcoitão 
    - Instrutora de Clinical Pilates 
    - Instrutora de Therapeutic Yoga com especial foque na dor pélvica feminina 
    - PINC cancer rehab certified Physiotherapist 
    - Master em técnicas hipopressivas – Método Hipopressivo M. Caufriez
    - Formação específica avançada em dor pélvica, disfunções sexuais e uro-fecais por Tarryn Hallam, Women’s health training associates
    - Formação específica em neurologia e neuro dinâmica do pavimento pélvico por Sandy Hilton
    - Formação específica em reabilitação do pavimento pélvico em Pediatria, na dor pélvica e na disfunção sexual masculina na dor e pós tratamento oncológico

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